Críticas Literárias - Memórias do Esquecimento

Memórias do esquecimento
por Luciano Ornelas


Flávio Tavares sempre foi um homem muito franzino: alto, de olhos azuis e sorriso tímido, a pele muito branca ainda revela um personagem avesso ao sol. Jornalista em Porto Alegre na década de 50, ganhou projeção nacional quando se mudou para Brasília, algum tempo depois da inauguração, e passou a escrever uma coluna política no jornal Última Hora, edição nacional, ao lado de figuras que formavam a elite cultural do País.

Flávio acompanhou os anos finais do governo de Juscelino e o que veio depois - Jânio, João Goulart e a revolução. Como tantos outros jovens daquela época, ele abandonou o jornalismo e tornou-se um revolucionário. Planejou e participou de ações ousadas contra a ditadura, acabou preso e jogado nos porões.


Com o codinome de “dr. Falcão”, Flávio fora acusado pelo Exército de planejar um atentado a bomba contra o então presidente da República, marechal Costa e Silva, numa visita a Uberlândia, Triângulo Mineiro, em 1967.


No livro Memórias do Esquecimento ele conta o desfecho deste delírio dos militares e de outros que compuseram o período mais negro da história republicana brasileira. Poucos conseguiram tirar de seu próprio martírio a matéria-prima para descrever com tanta riqueza os anos de chumbo. Dos choques de alta voltagem na virilha aos tapa-ouvidos que faziam sangrar, do pau-de-arara à tortura psicológica.


Do outro lado morriam soldados do Exército. Morriam porque vestiam uma farda, eram meninos do serviço militar obrigatório e, na verdade, nem sabiam direito do que se tratava. O que era direita, o que era esquerda? Enfim, todos “vítimas da prostituição da política”, como ele afirma em seu livro.


Flávio estava no grupo banido do País em troca da libertação do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Desembarcou na Cidade do México, escrevia para o jornal Excelsior. Depois virou correspondente de O Estado de S. Paulo com o pseudônimo de Júlio Delgado - aliás, um dos textos mais brilhantes do Estadão naquela época.


Do México foi para Buenos Aires, base de onde fazia a cobertura de toda a América do Sul. Ocorre que os anos de chumbo não corriam só no Brasil. Numa viagem a Montevidéu, acabou preso pela polícia política uruguaia. E naquela prisão, de olhos vendados, chegou a ouvir a sentença de um de seus torturadores, de gatilho armado:
--Você vai ser executado!


O episódio narrado pelo jornalista prova que os militares do Cone Sul tinham mesmo uma ação conjunta com o nome de Condor.


Corria depois o governo do general Ernesto Geisel, o Brasil experimentava os primeiros sinais de abertura e um enorme esforço diplomático e jornalístico foi feito para libertar Flávio. Ele saiu da prisão de Montevidéu em 1978 e foi para Portugal. Durante mais de dez anos Flávio Tavares ficou assim, de andarilho.
Veio a anistia, Flávio voltou e veio trabalhar como editorialista do Estadão, em São Paulo. Profundas olheiras marcavam então o jornalista, herança de um sofrimento que ainda busca esquecer - e jamais conseguirá.


O certo é que poucos brasileiros têm a noção exata dos anos de chumbo, de como o sangue escorreu fácil. Foram 21 anos de trevas, em que a censura proibiu de tudo - músicas, peças de teatro, filmes, balé, reuniões, notícias, principalmente notícias. Tolerância, nenhuma.


Neste momento, quando o País se prepara para um novo encontro com as urnas no segundo turno, respira-se este ar de liberdade, apesar da avalanche de escândalos e denúncias de corrupção. Lá se vão 21 anos desde que o civil Tancredo Neves foi eleito presidente depois da era militar. Hoje vivemos num País livre, embora grande parte do povo continue sufocada pelo ranço da pobreza e da miséria nos cortiços e favelas deste País. Ainda se erra muito na hora do voto, escolhemos José Genoino, Antônio Palocci ou o Lula de um lado, Maluf, Valdemar Costa Neto e o Fernando Collor de outro – todos esses que afanaram a esperança do povo e hoje coabitam o mesmo balaio de gatos. Ou de ratos.


Mas todo dia de eleição é dia de recomeçar. Aproveitemos, pois, esta saúde civil. É a vitória maior dos que nos legaram suas memórias do esquecimento.


Luciano Ornelas é jornalista. Foi editor-chefe do jornal O Estado de S.Paulo


1 comentários:

Martinha M.S. disse...

Quando comecei a leitura desse livro, imprescindível na estante de quem se diz de esquerda, não consegui parar até chegar a última página...Um relato símples, porém forte, dos anos de chumbo, onde o autor tem um papel de primeira pessoa nos acontecimentos narrados. Muito bom, recomento com louvor!! Grande abraço!!