Sampa...

Sampa
por Helena Piccazio

São Paulo. Grande, muito grande! Nasci na Avenida Paulista dando trabalho entre o Natal e o Ano Novo. Nunca me considerei assim muito paulista até que voltei pra cá dessa última vez. Faz uns 4 anos que fico viajando por aí, correndo atrás de coisa, de conhecimento, de gente, de fotos, de cultura, de amores, de coisas que talvez nem existam. Aí eu volto, não pela primeira vez, mas pela primeira vez com saudade, com vontade de voltar, de andar pela Paulista, de cheirar o pão francês de manhã, de ver aquele mundo de gente se movimentando, de saber que tem de tudo um pouco bem em volta de mim, das exposições malucas, das pessoas variadas, das comidas de todo canto, da cidade fervendo às 4 da manhã, padaria barzinho Sala São Paulo Paulista Masp Vila Madalena Mês do Rock mostra internacional de cinema sebo. Eu, que me achava tão não-paulista, me descobri uma paulistinha da gema, metida a intelectualóide, apaixonada por esse cinza tão colorido, que acorda tarde, trabalha o mais que dá, vive de noite e checa e-mail 3 mil vezes por dia. Paulistinha que se sente bem só de chegar perto do Espaço Unibanco, que não nega uma cerveja, que sobe a escada não rolante do metrô pra fazer exercício. Paulistinha que está reparando que em São Paulo as pessoas se beijam na boca muito mais que em outros lugares do mundo, mas muito mais!, que aqui se come do melhor e do pior, que o céu de noite é roxo e laranja, que as coisas podem funcionar maravilhosamente bem ou muito mal de dar raiva e vontade de voar no pescoço. Cidade toda rica, Brasil já com cara de tudo-que-é-canto em que se encontram origens e influências de todos os cantos, cidade onde meu bairro se chama Paraíso e é habitada principalmente por japoneses, árabes e italianos, que hoje em dia não são nem japas, nem árabes, nem macarrônicos, são tudo brazuca, tudo paulista, né, meu? São Paulo, que saudade que eu tava de ti, cidade doida, sem limite, com começo de pedra e terra no museu, mas sem fim, sem horizonte, sem vista bonita, mas com essa capa de concreto cobrindo belezas maravilhosas, belezas humanas artísticas cheias de detalhes, cidade cheia, transbordando de histórias pedindo por favor para serem contadas. Cidade de cinema (ai, adoro! e só podia ser em Sampa mesmo), cidade de música clássica, de música maluca, de música no barulho infernal... cidade sem sossego, que tem que cuidar de todos, mas descuida de tudo... cidade do chopps e pastel, mas com todo jeito de café com pão de queijo. São Paulo paradoxo, São Paulo toda múltipla, São Paulo com nome de santo e vida de pecador, Sampa onde nasci e onde, pela primeira vez, me deu um gosto enooorme de voltar!
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Essa foto foi tirada do alto do Sesc Paulista em agosto de 2009. Bela vista, não?

5.12.09 | 0 Deixe seu comentário!

Causos - é culpa do outono

é culpa do outono
Por Luciano Piccazio Ornelas

Estava outro dia tão assim que quase nem me dei conta. Não conseguia ficar de pé, nem pra poder deitar e dormir. Não conseguia então, enfim, nem dormir nem controlar meus instintos.

Então levantei. Toca mais um café. Pra varanda aproveitar o friozinho, e enfiar a cara no café quentinho saindo da caneca. O cérebro começa a dar voltas, e nem lembrava mais por que estava lá. Ah, sim, ela. De novo. É sempre uma "ela" diferente, mas sempre o mesmo "de novo".

Talvez sejam as dores flagradas em instantes de indecisão. Acho mais que são as dores flagradas em momentos de tristeza. Daquelas que dá sempre quando o outono está pra acabar. Daquelas que só dá pra sentir quando está friozinho, e você está com a cara enfiada no copo de café.

Tipo a dor que você aproveita um pouco, e sofre um bocado. Fica noites em cafés e varandas, até acabar o outono de vez.

24.6.09 | 3 Deixe seu comentário!

Causos - De como a gente, sem querer, cria qualquer historinha

De como a gente, sem querer, cria qualquer historinha
por Carol Bataier

Eu no ônibus e lá fora uma chuvinha fina dessas que prendem a gente na cama em qualquer dia cinza. Mas por mais que minha vontade fosse essa, de nunca sair de baixo do edredon, é no ônibus que eu estava. Por que às vezes as minhas obrigações pesam e até criam voz própria. E elas conseguiram, me arrancaram da cama, com frio e cara amassada. Moleton, mochila e sono, fui pra faculdade. Aquele ritmo de ônibus, embalando meu sono de olhos abertos. O banco duro deixa tudo mais real. Sinal vermelho no meio do dia cinza. E eu olhando pela janela. E foi nesse momento que meu pensamento, feito borboletinha que vai sem a gente ter poder de segurar, passou pelo vidro respingado de chuva. Caiu lá fora, no dia cinzento, na chuvinha triste, passou pela rua, chegou na calçada. E lá foi ele pousar numa casinha de esquina, dessas com portão baixo, escadinha de dois degraus, varanda e porta de madeira. Casa de vó, dessas que às vezes tem até samambaia pendurada. E, pensamento-borboleta esse meu, feito uma delas, entrou sem pedir licença. Abusado, sem mesmo abrir a porta, passou. E quando percebi, estava ele lá na sala. Era eu que lá estava. Sala pequena, móveis de madeira, TV antiga, telefone idem, nada de muito moderno, nada muito branco ou prateado. Cortinas escuras, desenhadas, almofadas. E eu lá, deitada no sofá. A TV ligada num canal qualquer, porque o que importava não era a programação e sim aquela sensação que dá uma TV ligada, sabe? Eu embaixo do cobertor, olhando pra TV, sem entender e sem querer entender. Sentindo cheiro de bolo que vinha da cozinha. A chuva fina lá fora, o frio, nada me incomodava. Ao contrário, tão boa uma tarde dessas. Alguém na cozinha cantava, e isso só embalava meu quase-sono. E então o ônibus deu uma arrancada. A luz agora era verde. E lá vinha o pensamento voltando pra dentro do ônibus gelado. E meu deu uma angústia, uma quase nostalgia. É que qualquer realidadezinha amena fica um pouco mais pesada pra quem tem pensamento-borboleta.

Por Carol Bataier

14.5.07 | 2 Deixe seu comentário!

Causos - De como você pode não perceber

De como você pode não perceber...
por Carol Bataier

É certo que a primeira vez que você viu aquele rostinho bonito nem pensou nesse mundo todo que havia por trás daquele corpo gostoso, daquele narizinho empinado.

Mal imaginou que a menina que dançava e ria pra todo mundo – ah!, uma exibida - poderia, numa tarde de sol, sair nua do chuveiro e pular direto no seu colo, molhada, abraçando com as pernas sua cintura, grudando a boca no seu pescoço entre mordidas e risadas pelo seu espanto, sua cara de bobo. Jamais pensaria, quando a viu sorrir e rir e sorrir novamente e o tempo todo, tão fácil, tão fútil, que ela poderia ser tão doce, tão meiga a ponto de te fazer sorrir também, assim, tão facilmente, só de olhar praqueles olhos que outrora você julgou maquiados demais, perdidos demais.

Você nunca imaginaria que agora passaria horas olhando aqueles mesmos olhos perdidos, ou acariciando seus cabelos enquanto tenta desvendar seus sonhos. De fato ela não fazia seu tipo. Não à primeira vista. Mas, também fato, que logo de cara te incomodou, senão você não teria reparado tanto em como ela segurava o copo ou conversava com os outros, e você não entendia bem o porque desse incômodo. Fez o possível pra ignorar, enquanto ela fazia o possível pra chamar atenção. Não só a sua, de todos, talvez, ela é assim mesmo. Ou era; porque agora ela é outra. Ainda guarda o mesmo sorriso, o mesmo jeito de dançar e de arrumar o cabelo quando sabe que tem alguém olhando. As roupas, talvez um pouco curtas demais, decotadas demais, também são as mesmas. E você pensa em como é possível alguém mudar tanto sem mudar nada. A menina é a mesma, mas agora você sabe que ela ama sol forte e chuva forte e que chora em despedidas, que tem medo de umas coisas bobas e enfrenta outras tantas tão mais perigosas. Que ela gosta de desenho animado e de filmes do Kubrick e ama a voz do Ney Matogrosso, sendo assim capaz de ouví-lo cantar Sangue Latino umas mil vezes seguidas. E então, de repente, você descobriu que adora aqueles olhos, aquela boca e aquelas mãos, ainda mais quando elas seguram bem forte nas suas, quase tentando atravessar seus ossos com as pontas dos dedos. E você mal imaginaria, naquele dia inebriado de cerveja e música, que hoje olharia pra ela com essa cara de bobo cada vez que ela te surpreende, e com essa cara de espanto (com uma pontinha de desespero) cada vez que ela diz, entre lágrimas, que não gosta mais de você. Porque agora você já não vive mais sem aquela voz rouca, aquelas músicas, aqueles livros, aqueles gritos, aqueles gestos, aquele jeito de dirigir o carro cantando e olhando o tempo todo pelo retrovisor. De repente a menina bonita que dançava te surpreendeu quando chorou num fim de tarde, quando cantou ou leu entre risos aquele trecho do Vinícius que diz que “eu sem você sou só desamor”; te surpreendeu por ser assim tão livre, tão capaz de abrir seu mundo pra um estranho chato como você . E você agora não se imagina mais fora desse universo tão diferente do seu, tão distante daquilo que você dizia querer... e tão aquilo que você precisava.

25.2.07 | 4 Deixe seu comentário!

Cinema do Roy - Oscar e Sundance

Oscar e Sundance
por Roy Frenkiel

A maior festa do cinema comercial está a menos de dois meses daqui. A entrega do Oscar, esperada ansiosamente pelos fanáticos, conhecedores e apreciadores da arte cinematográfica já tem seu processo iniciado. Os melhores filmes já estão nomeados. Mas, nos Estados Unidos, em uma cidade nem tão distante do local da entrega do Oscar, Los Angeles, também existe um outro festival, um dos mais importantes do cinema independente, provavelmente perdendo em popularidade apenas para o Cannés.

Trata-se do Sundance Film Festival, realizado em Park City, um dos festivais de maior audiência nacional, mas que há alguns anos não tinha nem metade do tamanho atual. Com o mesmo pretexto do festival de Cannés, o Sundance traz à tona diretores, escritores, produtores, atores e coreografistas do cinema independente de grande qualidade. Dezenas ou centenas de filmes foram escolhidos entre dezenas de milhares, mas isto faz parte da inovação do cinema independente no geral. Afinal, há vinte anos entrar no Sundance significava não fazer parte das uniões de Hollywood, e quase ninguém se arriscava. Em comparação, atualmente há outros festivais com o mesmo propósito do Sundance. Em um deles, por exemplo, apenas entra quem obtiver uma carta de rejeição do próprio. Todos os festivais, ou quase todos, permanecem constantemente lotados. O motivo? A popularidade dos filmes alternativos tem mudado a face mundial do cinema.

Isso se deve à falta de originalidade iminente, expressa nos últimos anos em Hollywood, enquanto uma boa parte dos melhores filmes era apenas uma reconstrução de obras já feitas no passado. A moda seguiu, cresceu, e, aparentemente, encheu. Um outro quesito é a transformação das gerações de cinéfilos, procurando algo que desafie suas mentes, que proponha uma realidade fictícia menos superficial. O cinema internacional, com o desenvolvimento da globalização cibernética, também contribuiu para o fenômeno. Atualmente, ser um diretor de filmes independentes gera créditos similares aos dos diretores hollywoodianos. No Sundance, por exemplo, o mesmo estilo independente mudou, e cineastas procuram expressar menos suas próprias perspectivas de suas herméticas vidas, para expressar assuntos de importância global.

Há alguns filmes importantes para o Sundance, a maioria inéditos, e confesso que não os assisti. Assisti alguns dos ganhadores dos anos passados, como “Land of Plenty” (Wim Wenders, 2004), com a atuação da quase famosa Michelle Williams, e um elenco humilde. Trata-se de uma missionária, acostumada com os conflitos da Faixa de Gaza e a fronteira isralense, que volta para os Estados Unidos em busca de seu tio, e percebe que, enquanto na Faixa de Gaza critica-se os Estados Unidos pelo capitalismo cruel, pela ostenção de valores monetários e pela destruição dos valores alheios, os Estados Unidos em realidade se encontra em crises financeiras e sociais intensas, mas ignoradas em prol do que ocorre no Iraque. O filme não é dos melhores, mas definitivamente toca em pontos sensíveis e essenciais. A quem encontrar, recomendo.

Para o Oscar, a situação não é das piores este ano, pelo mesmo efeito, a necessidade de criar alternativas dentro do cinema comercial. “Babel,” por exemplo, de Alejandro Gonzáles Iñárritu (diretor de “Amores Perros,” 2005, um dos melhores filmes de humor negro que já assisti), é o favorito ao prêmio de melhor filme, ao lado de “Little Miss Sunshine” (2006, Jonathan Dayton e Valerie Faris), “The Departed” (Martin Scorsese, 2006), “Letters from Iwo Jima” (do veterano Clint Eastwood, 2006) e “The Queen” (Stephen Frears, 2006). No caso de “Little Miss Sunshine,” já se testemunha a mudança do ângulo escolhido para entreter uma audiência. O filme, de modo geral, trata da má sorte, da disfunção familiar e conceitos sociais descartáveis, bem como do ser humano, lidando com as dificuldades absurdas do cotidiano. Talvez os filmes de Scorsese, de Eastwood e de Frears, não tratem do ângulo mais original possível. Mesmo assim, certamente o fazem Alejandro Gonzáles em “Babel” (cujo tema prefiro deixar no ar) e os diretores de “Little Miss Sunshine”. Vale a pena assistir.

Quanto ao cinema, fiquem espertos: O mundo está mudando. O cinema faz parte do mundo. Logo, o cinema está mudando.

Aos abrax,

Roy Frenkiel

3.2.07 | 2 Deixe seu comentário!

Cinema do Roy - Os Gênios do Crime

Os Gênios do Crime
Por Roy Frenkiel

Um dos primeiros propósitos do cinema pós-edição, foi o da propaganda. Uma das primeiras e mais famosas propagandas massivas eficazes realizada, foi feita às ordens de Hitler, contra O Judeu, o ‘üntermentch’, ‘subumano’ responsável quase exclusivo dos males da Alemanha. Muitos de meus amigos próximos, judeus como eu, testemunharam posteriormente que a propaganda funcionaria, caso não conhecessem a realidade. O cinema, portanto, há décadas, já provou-se método não só eficaz, mas provavelmente a principal ferramenta do marketing de idéias, se não também de produtos e, eventualmente, da história.

Gibson procurou fazer exatamente isto quando lançou ‘A Paixão de Cristo’ em 2004, causando uma polêmica que, para ele e seus associados, serviu de sólida base a sólidos lucros. Independente da trama e da veracidade bíblica de sua narrativa, a direção e intenção do diretor espelham-se justamente na violência que, mesmo tendo ocorrido conforme a narrativa do filme, expressa-se com o intuito de causar desgosto, asco e repúdio aos olhos do espectador. Isso é eminente nas salas de cinema locais, onde o público ‘conversa’ com a gigantesca tela e a imagem do refletor, aplaudindo e vaiando conforme a causada impressão. O sangue do público lateja, verdeja insanamente, e a ‘torcida’ inicia um aquecimento que pode, muito bem, tornar-se concreto. Mel Gibson poderia perfeitamente inspirar o amor a Jesus com seu filme, amor religioso por seu sacrifício carnal em nome da raça humana, não apenas dos gregos ou dos troianos, mas de toda ela como uma só. Preferiu, no entanto, mostrar a tortura de sua pele, e um inimigo em comum, o traidor, o demoníaco Judas. A mensagem, é claro, torna-se mesclada à brilhante cinematografia, escolha de imagens, fala do ‘original’ Aramaico (hollywoodiano), e uma delineada trama profissionalmente selecionada para impressionar o público. Em outras palavras, a polêmica levou o público ao cinema, que com seu desgosto, mas inegável (e inexplicável, alguns clamam) prazer pelo bom filme, apenas atraiu mais público, e a mensagem, seja ela qual fosse, qual interpretasse o espectador, foi amplamente distribuída.

Agora, novamente, Gibson procura o mesmo ângulo com ‘Apocalypto’, lançado ao fim do ano passado, no misto da raiva do público à imagem do ator-diretor australiano-nova-iorquino. Aos desavisados, Mel conseguiu a proeza de ser preso dirigindo bêbado em Los Angeles, e enquanto era detido, insultou o ‘judeu, responsável exclusivo dos males dos Estados Unidos’. O filme conta a estória – e note-se o ‘e’ de ‘es’tória – da decadência da civilização Maya quando, em 1517, já sofriam pelo conflito entre 16 tribos ao controle total da região, enquanto muitos dos ex-habitantes das grandes cidades, procuravam a paz nas florestas regionais. Aqui, mais uma vez, o diretor escolhe a narrativa da violência, mesclada à sua genialidade cinematográfica inegável, para expressar um ponto que não se esconde, porque muito pelo contrário, aparece na frase de abertura do filme: ‘Uma grande civilização não se conquista por fora sem que antes se destrúa por dentro’, de Will Durant. Uso ‘estória’ não porque a película mente ou desmente a ‘história’, nem por sua fabricação, porque se muito, foi meramente editada, não modificada da crua e nua realidade. Uso-a, isto sim, justo pela injusta edição da história de uma civilização tão maior do que no momento de sua decadência, esta estendida por décadas sem fim, até a chegada verdadeiramente apocalíptica dos europeus colonizadores, vindos de uma Renascença marcada por Inquisições, Cruzadas, e total injustiça e opressão sociais. Por mais verídica, realista e perfeitamente elaborada a trama, Gibson escolheu filmá-la de modo a inspirar a torcida pela morte de índios, e ainda, quem sabe, o alívio do público quando, no horizonte, se aproximavam as caravelas de Hernández de Córdoba, capitão dos exploradores das terras Maya. Para quem conhece as consequências dessa chegada, não há possível alívio, e sim a consciência de que aquilo, e não a decadência do Império Maya, significou o fim de uma grande civilização.

Nada justifica a barbárie dos índios opressores, e ninguém pode descartar a realidade de que, entre eles e muitas de suas tribos, houve muitas guerras, muitas delas de extrema violência e crueldade, se em nome de sacrificios supersticiosos ou disputando territórios. Contudo, o genocídio ocasionado pelos europeus, de homens, mulheres, crianças e idosos, nada se compara ao primitivismo destas ditas tribos em suas batalhas. Mesmo que houvesse genocídio entre os índios, nenhuma tribo, nem as mais cruéis, procurava aniquilar crianças propositalmente, como fizeram e ainda fazem os pertencentes à Grande Civilização Ocidental. Em nenhuma de suas guerras houve a menor intenção de aniquilar toda uma raça, mesmo porque a guerra era, ou assim se pode afirmar paralelamente, ‘civil’, entre os Mayas, em seu próprio âmago. Aniquilar toda uma raça, como ainda se diz e se cochicha pelos ouvidos dos racistas, homofóbicos, anti-semitas e misógenos, significaria para os Mayas, naquela época, exterminar os próprios Mayas. Gibson, com a frase de Durant, quis expressar que as grandes civilizações sempre foram iguais, e que os europeus apenas lograram a conquista pela desunião das tribos locais. Não se pode negar que a desunião tivesse alguma influência, mas imaginemos que, por mais avançados em suas arquitetura e no modo de condução de suas vidas, em floresta ou nas restantes cidades, a surpresa dos índios foi extrema ao avistar os europeus em suas caravelas. Talvez, menos por seu avanço em infra-estrutura, e mais pelo atraso em suas superstições, a batalha dos europeus, desde a original ilha caribenha invadida por Colombo, até a desoladora conquista dos territórios Maya e Azteca, foi infinita e superiormente desproporcional ao nível dos índios, originais habitantes dos territórios colonizados, mais cruel, desumana e opressora, por motivos mais banais, sem cultura ou estrutura pensamental antropológica, apenas pelo mais básico instinto animal pela busca e consolidação de um terreno.

No futuro, não se espantem se Gibson resolver fazer um filme sobre os muçulmanos, expressando seu primitivismo e sua barbárie, e o declínio de sua civilização, que antes se auto-desestruturou para que fosse assim possível a destruição pelas mãos dos Estados Unidos militar e seus aliados. Ele é um bom diretor, afirmo com toda a certeza que pode ter um mero espectador, como outro qualquer. Nenhum dos demais participantes da sessão sequer piscou os olhos durante o muito longa-metragem. O filme é bem filmado, bem traçado, bem falado, bem legendado, e tudo de bom que se pode dizer de um filme. Assustadora nem é a mensagem... Assustadora é a intenção do diretor, espelhada na frase inicial. Gênio, ele talvez pudesse ser, sem a frase... Talvez, com a mesma, torne-se ele o que, segundo Bush e para seu secreto agrado, chamar-se-ia de ‘Gênio do Mal’.

Roy Frenkiel, direto do site Reação Cultural, exclusivo para o Arte Free
http://reacaocultural.blogspot.com/

8.1.07 | 1 Deixe seu comentário!

Petit Música - Musiquinhas de natal

Musiquinhas de natal
por Luciano Piccazio Ornelas

Chegou o natal, época dos comerciantes faturarem e de muitos tirarem férias. Época dos discursos inflamados sobre espíritos natalinos, do décimo terceiro, décimo quarto, décimo quinto...

Para a música, é sempre um bom período. As festas pipocam para todos os lados, o tal espírito natalino floresce nos bolsos dos homens de negócios que, para impressionar, liberam a verba.

Floresce também, nas mãos compositoras dos músicos, músicas natalinas. E é exatamente aí que mora o perigo.

Quem agüenta ouvir Jingle Bells? Ou então "Happy Xmas", do John Lennon? São músicas que ficam armazenadas num potinho enferrujado no porão de uma casa velha, e que são tiradas todo o natal, invariavelmente.

Não sei quanto a vocês, mas essas músicas me deixam num mal humor danado, bem longe do tão almejado "espírito natalino". A pior coisa do natal é ouvir aquela versão da música do John Lennon em português. É para se jogar da ponte.

Aí os artistas se reúnem. Vestem-se todos de branco, seja natal, seja ano novo. Falam de paz, amor e esperança como se fossem palavras mágicas, que por si só resolverão o problema do mundo. É particularmente risível: "Desejo a todos paz, amor e esperança e um beijo bem quentinho no coração". Ok, então. Mas... o que você está fazendo para isso?

Não, cantar na Globo não é um bom jeito de atingir a paz mundial.

Realmente o natal traz coisas boas. O tal espírito natalino, por exemplo. Não é ótimo ver as pessoas se ajudando sem esperar receber nada em troca, mas simplesmente sendo movidas por um sentimento maior? Mesmo que só por alguns dias, é ótimo. Agora entram aquelas musiquinhas horríveis e o que acontece??? A pasteurização do natal!!!!! É paz e esperança pra cá, paz e esperança pra lá! E ninguém até agora parou para pensar seriamente nestas palavras. To começando a ficar enjoado delas.

Então uma dica, neste natal dê cds de música instrumental, qualquer que seja. Pra turma parar de se pasteurizar com o cd do Michael Jackson cantando um mundo mais bonito (uóóóó). Uma boa dica é Bolling Suíte For Flute, ou qualquer um do Jeff Beck. Só farei um pedido: peloamordeDeus, quebrem os cds de musiquinhas de natal!!!!

Luciano Piccazio Ornelas

16.12.06 | 3 Deixe seu comentário!

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